Endividamento do Setor Rural

Hoje o setor rural brasileiro enfrenta um endividamento próximo a R$ 200 bilhões, o que representa 20% do total da carteira de crédito rural das instituições financeiras que operam linhas de crédito para o setor. Este é o maior nível de endividamento já registrado pelo Banco Central, pois historicamente o endividamento do setor opera entre 5% a 10%.

Além disso, indicadores de inadimplência e pedidos de recuperações judiciais também estão elevados, com recordes com quase 2 mil pedidos registrados no setor em 2025, segundo dados do SERASA.

Para procurar combater este problema, a Frente Parlamentar Agropecuária (FPA) no Congresso Nacional tem trabalhado para a aprovação do Projeto de Lei (PL) 5.122/2023 para renegociação de dívidas de cerca de R$ 100 bilhões dos produtores rurais, o que resolveria em parte o alto endividamento.

É importante destacar que o PL 5.122 possui critérios técnicos para a renegociação de dívidas, como a condição de perda econômica de pelo menos 30% no faturamento do produtor rural endividado entre 2019 e 2025, seja por fatores climáticos ou por questões econômicas, como queda dos preços agrícolas no mercado.

 O impacto estimado para o Tesouro Nacional da renegociação das dívidas rurais foi calculado em torno de R$ 140 bilhões nos próximos 10 anos pelo Ministério da Fazenda, o que traz um impasse para aprovação na sua integralidade, dado o quadro de dificuldade fiscal que o Brasil enfrenta.

O texto final ainda não foi aprovado e está em discussão pelas Casas Legislativas antes de seguir para a sanção presidencial. Pontos como fontes de recursos oriundos do Fundo Social (proveniente do pré-sal), suspensão de cobranças, taxa de juros e período de quitação (que pode chegar de 10 a 15 anos) estão ainda em pauta. 

Além disso, as regras sobre a operacionalização da renegociação das dívidas rurais pelas instituições financeiras têm sido debatidas através da FEBRABAN – Federação Brasileira dos Bancos.

A questão que devemos nos perguntar é: por que chegamos a este elevado nível de endividamento no setor rural?

A resposta dessa pergunta não é tão simples e direta assim, e exige o entendimento das condições de funcionamento da agricultura brasileira nos últimos 5 anos, em particular.

Em primeiro lugar, temos o impacto das quebras de safra decorrentes de problemas climáticos que sempre acompanharam a agricultura, que é uma verdadeira “indústria a céu aberto”. 

Em 2024, houve um período de estiagem que afetou boa parte da produção de grãos no Brasil, com perdas de mais de 8% da produção nacional. Nos últimos anos, também tivemos quedas expressivas da safra no Rio Grande do Sul, com perdas que superaram 30% da produção.

Adicionalmente, na Safra 2022/23, os produtores brasileiros tiveram um impacto negativo ocasionado pelos custos de produção, com o conflito entre Rússia e Ucrânia, quando os valores de fertilizantes no mercado internacional mais do que dobraram naquela safra, diminuindo expressivamente a rentabilidade dos produtores.

Não podemos deixar de fora desta lista o ciclo de elevação dos juros no Brasil a partir de 2022, quando saímos de uma SELIC de 5% para uma taxa de 15% em 2026, o que impactou fortemente o endividamento dos produtores, contribuindo para que o Brasil chegasse neste elevado grau de dificuldade financeira.

Os preços das principais commodities agrícolas que o Brasil produz – a soja e o milho – também estão em patamares baixos em função dos estoques globais e domésticos mais elevados. E também tivemos impactos negativos das tarifas americanas sobre cadeias produtivas brasileiras importantes, como a carne bovina e o café.

Lembrando que, mesmo nestas condições adversas, o agronegócio brasileiro apresentou volume recorde de exportações em 2025, com valor de U$ 169 bilhões, o que representou praticamente metade de tudo o que o Brasil exportou neste ano e teremos em 2026 uma nova safra recorde de grãos, com volume de 358 milhões de toneladas, consolidando a nossa posição mundial como um forte produtor agropecuário.

No entanto, é muito importante que a questão do endividamento do setor seja equalizada através do PL 5.122/23, para que o produtor rural tenha condições de melhorar o seu fluxo de caixa, através de repactuação e alongamento de dívidas, e assim continue investindo em maquinários, insumos, tecnologia e produtividade, com produção sustentável de alimentos e bioenergia para o Brasil e todo o mundo.

Felipe Prince Silva

Economista, Ms. Economia Agrícola, especialista em finanças e agronegócio 

(www.fprince.com.br)