A pequena indústria revela aquilo que os indicadores macroeconômicos escondem
Otto Nogami
Economista, professor de economia do Insper e sócio da Nogami Economia & Estratégias Os indicadores econômicos divulgados nas últimas semanas parecem transmitir uma mensagem relativamente otimista. A inflação desacelera, o mercado de trabalho continua aquecido, as exportações atingem níveis recordes, o investimento direto permanece elevado e a atividade econômica segue crescendo, ainda que em ritmo moderado. À primeira vista, o cenário sugere que a economia brasileira atravessa um período de relativa estabilidade. Entretanto, quando observamos a realidade das micro e pequenas indústrias, a leitura torna-se bastante diferente. O mais recente Panorama da Pequena Indústria, divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), mostra que a confiança do empresário permanece abaixo da linha dos 50 pontos há vinte meses consecutivos. Mais do que um indicador estatístico, esse resultado representa um estado de espírito do setor produtivo: cautela, adiamento de investimentos e dificuldade para planejar o futuro. O dado chama atenção porque ocorre justamente em um momento em que vários indicadores macroeconômicos evoluem favoravelmente. Se a inflação está desacelerando e o emprego continua crescendo, por que a confiança continua deprimida? A resposta aparece quando observamos quais são os principais problemas apontados pelos próprios empresários. Pela ordem, surgem novamente a elevada carga tributária, os juros altos, o custo das matérias-primas, a burocracia, a escassez de mão de obra qualificada e as dificuldades de financiamento. Nenhum desses fatores é novidade. Ao contrário, eles aparecem repetidamente nas pesquisas realizadas há vários anos. Essa talvez seja a principal mensagem do levantamento da CNI. O problema da pequena indústria brasileira não é conjuntural. Ele é estrutural. Essa constatação dialoga diretamente com uma reflexão apresentada em nosso artigo da semana passada. Durante muitos anos, o debate econômico brasileiro concentrou-se em discutir a inflação sob quatro óticas tradicionais: excesso de demanda, aumento de custos, inércia inflacionária e expansão monetária. Essas explicações continuam válidas. Mas talvez elas já não sejam suficientes para explicar a persistência das dificuldades enfrentadas pela economia brasileira. Existe um quinto elemento que merece maior atenção: as limitações estruturais da economia. Quando uma empresa convive simultaneamente com elevada carga tributária, crédito caro, excesso de burocracia, infraestrutura deficiente, insegurança regulatória e dificuldade para contratar trabalhadores qualificados, seus custos aumentam continuamente. Não se trata apenas de produzir mais caro. Produz-se com menor produtividade. Investese menos. Inova-se menos. Exporta-se menos. E cresce-se menos. Por isso, combater apenas a inflação por meio da política monetária torna-se insuficiente. A elevação dos juros ajuda a controlar a demanda agregada, mas não elimina os fatores que tornam a produção estruturalmente mais cara. O próprio levantamento da CNI ilustra essa realidade. Apesar de uma ligeira melhora no desempenho das empresas durante o segundo trimestre, a situação financeira continua fragilizada. As expectativas seguem moderadas. A confiança permanece baixa. Em outras palavras, as empresas sobrevivem, mas encontram enorme dificuldade para expandir seus negócios. Para as micro e pequenas indústrias, essa realidade possui consequências práticas bastante claras. Projetos de investimento são adiados. Contratações tornam-se mais criteriosas. A formação de estoques exige maior cautela. O capital de giro torna-se mais caro. A margem para absorver aumentos de custos diminui. A competitividade frente aos concorrentes internacionais também se reduz. É justamente nesse ponto que a discussão econômica precisa evoluir. O desafio brasileiro não consiste apenas em reduzir a inflação. Consiste em reduzir o custo de produzir no Brasil. Enquanto esse ambiente estrutural permanecer inalterado, continuaremos convivendo com um paradoxo recorrente: uma economia capaz de apresentar bons indicadores conjunturais, mas incapaz de transformar esse desempenho em crescimento sustentado da produtividade, da renda e do investimento. A pequena indústria talvez seja o melhor termômetro desse fenômeno. Ela sente primeiro aquilo que, muitas vezes, os grandes agregados macroeconômicos demoram a revelar. Por isso, acompanhar seus indicadores significa muito mais do que observar um segmento específico da economia. Significa entender, antecipadamente, quais são os obstáculos que continuarão limitando o crescimento do país enquanto as reformas estruturais permanecerem incompletas. Afinal, a competitividade de uma economia não depende apenas da capacidade de suas empresas. Depende, sobretudo, da qualidade do ambiente em que elas precisam produzir, investir e competir.