A indústria brasileira e o desafio de voltar a crescer
Otto Nogami, Economista, professor de economia do Insper e sócio da Nogami Economia e Estratégias Os indicadores divulgados nas últimas semanas revelam um cenário que, à primeira vista, parece contraditório.
O Monitor do PIB da Fundação Getúlio Vargas mostra que a economia brasileira continua crescendo, impulsionada principalmente pelo consumo das famílias e pelo setor de serviços. Entretanto, as sondagens da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostram uma indústria ainda sem força para recuperar o dinamismo perdido nos últimos anos. A construção civil, por sua vez, voltou a apresentar piora nas expectativas dos empresários. Esses resultados levantam uma questão importante: por que a economia cresce enquanto a indústria continua enfrentando dificuldades? A resposta vai muito além da conjuntura. Desde aproximadamente 2011, a indústria brasileira vem perdendo competitividade de forma gradual. Nesse período, o país enfrentou governos de diferentes orientações econômicas, mudanças na política fiscal e monetária, crises internas, pandemia e alterações profundas no comércio internacional. Apesar disso, o crescimento econômico permaneceu, em média, próximo de 2% ao ano. Essa persistência indica que o problema não é apenas cíclico. Trata-se de uma restrição estrutural. Durante muito tempo, o debate concentrou-se em fatores como juros elevados, carga tributária, burocracia, câmbio e custo do crédito. Todos eles continuam sendo importantes. No entanto, isoladamente, não explicam por que a indústria brasileira não conseguiu recuperar sua competitividade mesmo após diferentes mudanças de política econômica. É preciso olhar para um aspecto mais amplo: o ambiente no qual as empresas investem e produzem. Uma indústria moderna depende de infraestrutura eficiente, mão de obra qualificada, logística competitiva, segurança jurídica, inovação tecnológica e estabilidade macroeconômica. Esses fatores não são responsabilidade exclusiva das empresas. Dependem também da qualidade das políticas públicas e da capacidade do Estado de investir em áreas que elevam a produtividade da economia. Nos últimos anos, o Brasil viveu um dilema importante. Entre 2019 e 2022, a prioridade foi o ajuste das contas públicas, acompanhado pela redução de diversas despesas discricionárias voltadas à formação da capacidade produtiva. A partir de 2023, parte desses investimentos voltou a crescer, especialmente em saúde, educação e ciência e tecnologia. Entretanto, essa recomposição ocorreu em um contexto de maior fragilidade fiscal, aumentando as preocupações com a dívida pública e contribuindo para a manutenção de juros elevados. O resultado é um desafio que ainda não conseguimos resolver: como ampliar os investimentos necessários ao crescimento sem comprometer o equilíbrio das contas públicas? Esse debate ganha importância porque o Brasil possui outra limitação relevante: a baixa poupança doméstica. Com poucos recursos internos disponíveis para financiar investimentos, o país depende fortemente do Investimento Direto Estrangeiro. Mas o capital internacional também avalia o ambiente de negócios. Empresas globais observam a qualidade da infraestrutura, da educação, da logística, da segurança e da estabilidade institucional antes de decidir onde instalar novas fábricas, centros de pesquisa ou unidades de maior conteúdo tecnológico. Quando essas condições não evoluem na velocidade necessária, muitos investimentos são adiados ou direcionados para outros mercados. Outros permanecem no Brasil, mas limitados ao atendimento do mercado interno, sem transformar o país em uma plataforma global de produção e inovação. Para as micro e pequenas indústrias, essa realidade tem consequências diretas. Juros elevados encarecem o capital de giro e os investimentos. Deficiências logísticas aumentam custos. A baixa produtividade reduz a competitividade, enquanto a menor expansão dos investimentos limita as oportunidades de crescimento ao longo das cadeias produtivas. A recuperação da indústria brasileira dependerá, portanto, de muito mais do que incentivos pontuais. Será necessário construir um ambiente econômico capaz de combinar responsabilidade fiscal com investimentos que ampliem a produtividade da economia.
Esse equilíbrio é essencial para atrair capital privado, nacional e estrangeiro, estimular a inovação e criar condições para um crescimento sustentável. A indústria sempre desempenhou um papel central no desenvolvimento econômico brasileiro. Recuperar sua capacidade de investir, inovar e competir internacionalmente não interessa apenas ao setor industrial. É uma condição indispensável para que o Brasil consiga crescer de forma consistente, gerar empregos de maior qualidade e elevar a renda da população.