A era das incertezas
Por Jankiel Santos – Economista
Os impactos da continuidade do conflito no Oriente Médio e dos consequentes problemas à navegação de produtos no Estreito de Ormuz já foram observados recentemente, quando diferentes autoridades monetárias ao redor do planeta decidiram seguir abordagens cautelosas em suas decisões sobre suas taxas referenciais de juros dadas as incertezas associadas ao atual ambiente geopolítico global.
Ainda que tenha reduzido a taxa básica de juros, o Banco Central do Brasil não foi uma exceção a essa estratégia mais zelosa ao optar por um corte ínfimo frente ao patamar em que se encontra atualmente a taxa Selic. É bem verdade que não se furtou em deixar aberta a possibilidade de acelerar o ritmo de à frente, caso as incertezas relativas ao conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã se tornem menores.
Isto é, a julgar pelo cenário inflacionário doméstico, o Banco Central do Brasil não parece considerar haver razão para manter a taxa Selic em patamares tão restritivos quanto atualmente está, restando apenas “nuvens externas” para serem dissipadas e permitir que o nível de taxa de juros no Brasil caia mais.
Logicamente, é difícil prever o final do conflito, mas a aparente destruição do arsenal iraniano e a redução observada nos ataques iranianos aos aliados dos norte-americanos no Oriente Médio passa a impressão de que esse momento está mais próximo e, portanto, a continuidade da queda da redução da taxa Selic em ritmo mais acelerado parece ser também o cenário mais provável para os próximos meses, o que é um ótimo sinal para a economia brasileira de maneira geral. Afinal, para além dessas incertezas advindas do âmbito geopolítico e da seara da política monetária, a comunidade empresarial brasileira terá de enfrentar pelo menos outras duas importantes fontes de dúvidas.
A primeira dela serão os percalços da implementação da reforma tributária aprovada em 2025. Ainda que não esteja ocorrendo cobrança efetiva em 2026, serão necessários promover alguns ajustes e esclarecimentos, especialmente para os segmentos de serviços intensivos em mão de obra, que poderão ver suas atividades se tornarem extremamente penalizadas, já que com a ausência de alteração na tributação de folha de pagamento, eles não gerarão compensações tributárias em suas cadeias produtivas.
Outra fonte de incerteza para as empresas está relacionada à discussão açodada que está sendo feita acerca da alteração na jornada de trabalho – a chamada escala 6×1 – que também implicará em aumento de custos principalmente para as companhias que se valem mais do fator mão de obra em suas atividades, já que não temos visto ganhos significativos de produtividade nos últimos anos – exceto no agronegócio. Ou seja, as companhias terão de contratar mais pessoas para suprir as horas vagas de quem não estará mais em seus postos, mas em um contexto no qual estamos com taxa de desemprego baixo e, portanto, isso poderá gerar pressões inflacionárias que terão de ser combatidas pela autoridade monetária brasileira.
Pois bem, saber quando o conflito no Oriente Médio pode ser a incerteza que mais chama a atenção de todos no momento, mas há outras fontes de dúvidas que não deveriam ser esquecidas e tem potencial de impactar os negócios de maneira muito mais próxima do que imaginamos. Aconselharia o foco nessas últimas em detrimento à primeira.