Inflação medida versus inflação sentida: um descompasso crescente
Otto Nogami, Professor de economia do Insper e Sócio da Nogami Economia & Estratégias
Muito se fala que a inflação medida pelos índices oficiais não reflete a realidade vivida pelas famílias brasileiras. Essa percepção é particularmente forte quando se observa o comportamento dos preços de “Alimentos e Bebidas”, grupo que pesa muito mais no orçamento das famílias de menor renda do que na média captada pelos índices como o IPCA.
O problema não está exatamente na forma de cálculo da inflação, mas na base sobre a qual ela é construída. O IPCA utiliza como referência a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), cuja última edição foi realizada entre 2017 e 2018. Desde então, o padrão de consumo das famílias mudou significativamente, especialmente após a pandemia.
Nos últimos anos, houve uma transformação importante na forma como as famílias consomem. O uso de aplicativos de transporte, serviços de entrega, compras online e até mesmo gastos com serviços digitais e apostas online (“Bets”) ganhou espaço no orçamento. Muitos desses itens não estão devidamente refletidos na estrutura de ponderação do índice. Em outras palavras, a inflação continua sendo calculada corretamente, mas sobre uma cesta que já não representa plenamente a realidade atual.
Esse descompasso fica ainda mais evidente no caso dos alimentos. Trata-se de um grupo de consumo frequente, essencial e pouco substituível. Quando seus preços sobem, o impacto é imediato e percebido no dia a dia. Como as famílias de menor renda destinam uma parcela maior do orçamento a esses itens, a inflação que elas sentem é, na prática, maior do que a média apontada pelo índice geral.
Essa diferença entre inflação medida e inflação percebida traz implicações importantes. Do ponto de vista da política econômica, o Banco Central utiliza o IPCA como referência para definir a taxa de juros. Se o índice não capta plenamente a pressão de preços enfrentada por parte relevante da população, pode haver um desalinhamento entre a política adotada e a realidade vivida.
Além disso, surge um problema de credibilidade. Quando as famílias não reconhecem nos números divulgados a inflação que enfrentam no cotidiano, a confiança nos indicadores oficiais pode ser afetada. Isso dificulta a comunicação da política econômica e pode comprometer a formação de expectativas.
No dia a dia, os efeitos são claros. As famílias passam a tomar decisões com base na inflação percebida, reduzindo consumo, substituindo produtos e adotando uma postura mais cautelosa. Empresas, por sua vez, enfrentam maior dificuldade para ajustar preços, pois lidam com consumidores mais sensíveis e pressionados.
Há também um efeito distributivo relevante. Como os itens essenciais têm maior peso no orçamento das famílias mais pobres, a inflação efetiva para esses grupos tende a ser maior, aprofundando desigualdades e reduzindo o poder de compra.
Diante desse cenário, a atualização da POF torna-se fundamental. Sem uma revisão das ponderações, o principal índice de inflação do país tende a se afastar cada vez mais da realidade. Além disso, o uso de indicadores complementares, como índices por faixa de renda, pode ajudar a capturar melhor a diversidade das experiências inflacionárias.
No fim, a inflação oficial continua sendo um instrumento técnico importante. Mas é preciso reconhecer seus limites. Em uma economia heterogênea como a brasileira, a média não representa igualmente todos os grupos. Entre a inflação que se mede e a inflação que se vive, existe uma diferença que não pode ser ignorada — especialmente quando se trata do impacto no cotidiano das famílias.