O Brasil nunca deixa de nos surpreender

Por Jankiel Santos – Economista

O Banco Central do Brasil tem afirmado e confirmado em seus documentos que a política monetária se encontra em campo contracionista e, portanto, não é novidade que a economia venha apresentando desaceleração. Após apresentar expansão de 3,4% em 2024, a economia brasileira viu seu ritmo de crescimento perder fôlego no ano passo e cresceu apenas 2,3% em 2025.

Embora a autoridade monetária brasileira tenha reduzido a taxa Selic em sua reunião do Copom de março e sinalizado que poderá implementar novos cortes à frente – a depender dos desdobramentos do conflito envolvendo Estados Unidos, Irã e Israel – o nível da taxa de juros ainda permanecerá em patamar restritivo, haja vista que a taxa nominal neutra de juros é de aproximadamente 8,0% a.a. – considerando a meta de inflação de 3,0% e a taxa real neutra de 5,0% a.a. estimada pelo próprio Banco Central do Brasil – o que ensejaria continuidade da desaceleração da atividade econômica.

Porém, ao analisar os dados recém-divulgados acerca do indicador criado pela autoridade monetária brasileira para tentar acompanhar a evolução do PIB brasileiro em uma frequência mensal – o chamado índice de atividade econômica do Banco Central, conhecido pelo acrônimo IBC-Br -nota-se uma dinâmica distinta da esperada, com aceleração no ritmo da economia.

A princípio, poder-se-ia pensar que o setor agrícola seria o responsável por esta surpresa, mas felizmente o Banco Central nos propicia a abertura por atividade e é possível identificar que, embora estas estejam apresentando expansão, a principal contribuição para o crescimento da economia nos primeiros meses de 2026 está sendo originada nas atividades não-agrícolas (serviços e industriais).

E não se trata apenas de recuperação do tombo observado ao final de 2025, pois esse efeito repique já aconteceu no mês de janeiro de 2026. Logo, a continuidade da expansão em fevereiro sugere haver tração legítima, quadro que também é reforçado pela resiliência observada nos dados do mercado de trabalho e nos números de inflação menos favoráveis do que os agentes econômicos imaginavam.

Portanto, antes de se pensar em adotar novas medidas de estímulos à economia, é importante avaliar – como tem feito a autoridade monetária – o grau de resiliência da atividade econômica e das pressões inflacionárias que ela traz para que não sejamos obrigados a conviver por mais tempo com uma política monetária em campo contracionista.