Impactos do Conflito no Irã sobre o Agronegócio Brasileiro
Autor: Felipe Prince Silva
Economista, Ms. Economia Agrícola, especialista em finanças e agronegócio (www.fprince.com.br)
O conflito no Irã, que se iniciou no dia 28 de fevereiro, envolvendo os Estados Unidos, Iraque e outros países do Oriente Médio, representa um forte impacto sobre o mundo todo, já que a região é grande produtora e exportadora de produtos fundamentais para a economia, como o petróleo, combustíveis, fertilizantes e produtos químicos.
O fechamento e dificuldade de passagem de navios pelo Estreito de Ormuz – uma importante rota controlada pelo Irã e que liga o Golfo Pérsico ao Oceano Índico – traz dificuldades logísticas e de abastecimento dos países que se relacionam comercialmente com a região, gerando altas dos custos e dificuldade de escoamento.
Sabe-se que o agronegócio brasileiro, setor que cresceu 11,7% em 2025, segundo dados do IBGE, é um segmento altamente conectado ao mercado internacional.
Seja porque o Brasil é líder e grande exportador de produtos agrícolas, como a soja, café, milho, açúcar, algodão, suco de laranja, carnes bovina, suína e de frango, dentre outros.
Seja porque o Brasil possui uma grande dependência da importação de matérias-primas para a produção de fertilizantes e defensivos agrícolas, com cerca de 80% da matéria prima sendo importada, com destaque para Rússia, China, Canadá, Marrocos e Estados Unidos.
Dessa forma, os produtores rurais e empresários da cadeia produtiva do agronegócio brasileiro já estão sentindo os impactos do conflito do Irã nos seus negócios.
Um dos impactos mais importantes é o aumento do custo do frete, em um momento estratégico de colheita e de escoamento da safra de soja, que é o carro chefe do agronegócio brasileiro. O Brasil está em plena colheita daquela que deverá ser a maior safra de soja da sua história, com volume próximo a 178 milhões de toneladas.
Em função da alta da cotação do petróleo no mercado internacional, que chegou a valores próximos a U$ 110/barril, temos no Brasil um aumento do preço do óleo diesel, que chegou a 25% em algumas regiões, encarecendo o custo de colheita da safra, que depende do abastecimento das colheitadeiras, e também aumento do custo logístico para exportação de grãos para os principais portos do Brasil, como o Porto de Santos, Porto de Paranaguá e os portos do Arco Norte. Em algumas regiões, também verificamos falta do produto.
Outro ponto de extrema preocupação para o agronegócio brasileiro é a alta contínua do custo dos fertilizantes no mercado internacional. Como exemplo, temos a Ureia, que já acumula alta de mais de 50% nestas últimas três semanas, chegando ao valor de U$ 650/tonelada.
Desta forma, existe uma situação de elevação dos custos de produção para os produtores brasileiros, tanto para a safra que está sendo colhida (Safra 2025/26), quando para a safra futura (Safra 2026/27), que está sendo planejada junto aos fornecedores de insumos, cooperativas, misturadores e indústrias, que importam matéria prima para a produção dos insumos agrícolas.
Por isto, é necessário acompanhar o cenário de perto para verificarmos possíveis desdobramentos que poderão impactar inclusive na diminuição do uso de tecnologia por parte dos produtores, com menor aplicação de fertilizantes, já que os produtores apresentam atualmente custos elevados e isto poderá comprometer negativamente a produtividade e o crescimento do agronegócio brasileiro, setor que tem sido fundamental para a dinâmica da economia brasileira nos últimos anos.