A pessoa mais difícil de liderar pode ser você mesma

Há pessoas extremamente competentes para liderar equipes, negociar contratos, administrar crises e inspirar clientes. Curiosamente, algumas delas encontram enorme dificuldade para liderar a única pessoa que as acompanha vinte e quatro horas por dia: elas mesmas. Durante anos, acreditei que o maior desafio da liderança estava nas pessoas. Descobri que, muitas vezes, ele estava em mim. Quando me perguntam o que me inspirou a escrever Coaching para Autogestão, essa costuma ser a resposta que mais surpreende. Não escrevi porque descobri uma nova teoria sobre liderança. Escrevi porque vivi a experiência de liderar. Foi da necessidade de compreender meus próprios comportamentos que nasceu este livro. Liderar os outros é visível. As pessoas observam reuniões, decisões, resultados e equipes. Liderar a si mesma é a parte oculta do iceberg. Acontece na conversa que travamos conosco antes de tomar uma decisão, de dizer “sim”, de estabelecer um limite ou de abrir mão do controle. É aí que tudo começa. A forma como conduzimos nossos pensamentos, emoções, prioridades, limites e escolhas determina a qualidade das demais lideranças sob nossa responsabilidade. Anos atrás, conheci uma empreendedora — vou chamá-la de Elisa. O nome é fictício. A história, infelizmente, é muito real. Habilidosa, criativa e perfeccionista. Fazia tudo — da criação ao acabamento. Era admirada pelos clientes exatamente pela qualidade do seu trabalho. E é justamente aí que muitas empresárias encontram um dos maiores desafios do crescimento. Mesmo dedicando atenção integral ao negócio, a produção nem sempre acompanha a necessidade de caixa. Elisa, por exemplo, gastava tempo demais na operação porque acreditava que nenhum outro profissional seria capaz de entregar um trabalho com o mesmo padrão de qualidade. Talvez você já conheça o final dessa história. A descoberta A queixa de Elisa era que precisava aprender a delegar. Na verdade, precisava aprender a liderar a si mesma. Aos poucos, percebeu que controle excessivo não é organização nem direção. Entendeu que o perfeccionismo escondia o medo de errar, de ser criticada e de ser julgada. E que trabalhar muito não significava produzir mais e melhor. Um dia, ela me disse que andava refletindo sobre sua autoliderança. — O que já descobriu? Silêncio. Depois de alguns segundos, Elisa respondeu: — Fazer tudo sozinha limita o crescimento do meu negócio. Nova pausa. — E… Ela respirou fundo. — Preciso de ajuda. Toda delegação começa antes da primeira conversa. Ela começa dentro da líder. Agora, faça como Elisa: pare por um instante e pergunte a si mesma, empreendedora: • • • • • Estou delegando tarefas ou responsabilidades? Expliquei claramente o resultado esperado? Ensinei antes de cobrar? Corrijo para desenvolver ou porque gosto que tudo seja feito do meu jeito? Minha dificuldade está na equipe… ou na necessidade de controlar tudo? As perguntas mais importantes da liderança raramente exigem respostas rápidas. Exigem coragem para permanecer algum tempo com elas. Precisam de reflexão. Porque é a reflexão que transforma informação em autoconhecimento. E o autoconhecimento muda o nosso posicionamento. Enquanto escrevia o capítulo sobre delegação em Coaching para Autogestão, percebi algo que continuo observando nas empresas. Delegar não é apenas uma competência de liderança. É uma competência de autoconhecimento. Antes de confiar nas pessoas, precisamos compreender o que acontece dentro de nós quando pensamos em abrir mão do controle. Talvez a pergunta mais importante desta nossa conversa não seja: “Você sabe delegar?” Talvez seja outra: “Que pensamento vem à sua mente quando você resiste a delegar?” Às vezes, acreditamos que estamos diante de um problema de liderança. Na verdade, estamos diante de uma raiz que nunca foi observada. Essa raiz pode ter muitos nomes: medo, perfeccionismo, necessidade de aprovação ou dificuldade em confiar. Enquanto cuidarmos apenas da superfície, o comportamento continuará voltando. Liderar uma empresa exige estratégia. Liderar pessoas exige comunicação. Já liderar a si mesma exige coragem. Coragem para reconhecer limites. Para pedir ajuda. Para confiar. Para delegar efetivamente. E para compreender que construir um grande negócio carregando tudo sozinha pode aumentar a dor e retardar a chegada dos bons resultados. E volto a provocá-la: talvez a pessoa mais difícil de liderar não seja aquela que trabalha ao seu lado. Talvez seja aquela que a acompanha desde o primeiro dia de vida. Quando foi a última vez que você liderou a si mesma com dedicação semelhante à que lidera a equipe?

#liderança #autoliderança #empreendedorismo #coachingparaautogestão #autoconhecimento Noscilene Santos Empreendedora, escritora, especialista em Treinamento e Desenvolvimento (T&D), Coaching e Mentoria. https://www.linkedin.com/in/noscilene-santoscoach/